Ficou bem grande esse conto, o terminei ontem. Dessa forma eu volto a postar por aqui.
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Tomás era agradável. Seu corpo alto e atlético, fruto de muito trabalho árduo em horas na academia e nas sessões de treinos futebolísticos, tinha lhe rendido status de herói grego. Detinha um par de olhos desnecessariamente brilhosos: sempre que olhassem para seus globos havia a impressão de que toda a esperança do mundo se resguardava naquelas fossas de luz e, para piorar, eram azuis, cor tão admirada por muitos: religiosos, marinheiros, aviadores, pescadores, suicidas. A sua boca continha um sorriso desdenhoso, porém convidativo, os lábios vermelhos e seus dentes perfeitos e brancos lembravam o que deveria ter sido o principal instrumento de sedução de Afrodite. Seus traços misturavam o feminino e o masculino, mas nunca sem desconhecer de sua sexualidade, mas essa peculiaridade lhe dava a possibilidade de ser considerado bonito por homens e atraente pra mulheres. De suas idéias saíam seu cabelo curto, negro e liso: curto para não perder suas forças repentinamente e nem lhe segurarem em batalhas campais; negro por conspiração da natureza: o que encontravam nos olhos, perdiam na cabeleira, que, apesar de consumidora, trazia a paz da noite; e liso para que caso cresça se tornasse uma cachoeira éreba. Sua voz era grave e macia, sempre que falava um trovão caía e uma almofada era posta em contato com o ouvido, firme e gentil, sedutora e respeitosa.
Frustrado seria aquele que apenas visse um tipo bonitão em Tomás, seu intelecto era invejável. Sempre muito bem informado e muito astuto na arte de pensar. Também era sensível o suficiente para entender as Artes e forte para segurar o choro enquanto consolasse a amada em prantos por emoções arrebatadoras. Seu conhecimento estratégico era fabuloso, tanto no futebol quanto no xadrez. Tomás era um ás de raciocínio, antecipando jogadas e remontando estratégias como quem improvisa uma música ao piano, afinal, suas jogadas sempre tinham algo de clássico, belo e leve. Falava bem e sabia contar piadas, uma pessoa interessante de se conhecer, ouvir, ver, animar.
Antes que pensem más coisas da índole de Tomás, esclareço que sempre foi um jovem muito honesto, tanto consigo quanto com os outros. Da mesma forma que nunca se aproveitou da maestria de Gaia para ludibriar mulheres mil: era romântico na medida certa e jamais deu falsas esperanças a uma donzela.
Alguns até duvidavam de sua existência.
Maria pegava fogo. Seu corpo parecia ter sido esculpido pelo próprio Satanás. A luxúria transbordava de seus poros macios e delicados, porém espinhudos para quem chegasse perto. Horas perdidas em longas caminhadas fizeram com que suas pernas fossem grossas e fortes o suficiente para impedir qualquer homem fugir de seu abraço fatal. Como Ártemis, gostava de caçar e, para isso, sua locomoção deveria estar em perfeitas condições de uso. As ancas exerciam um poderoso efeito digno do magnetismo mais físico possível: redondas, firmes, elas mexiam em sua inflexibilidade enquanto andava, fazendo com que aqueles que vinham por trás de sua marcha se abatiam em seu poder libidinoso. Sua barriga não era nem dura, nem flácida, o meio termo para confortar um beijo e incomodar uma cabeça. Seus seios eram do tamanho ideal para sobrar apenas um pouco numa mão adulta; redondos e rosados, ficavam um pouco à mostra quando, sem sutiã, vestia uma camiseta branca apertada. Como vista em filmes americanos, o suor durante a caminhada manchava de transparência seu vale e quem quisesse percorrer por entre as montanhas poderia se imaginar no meio do desfiladeiro de carne. Sua face era agressiva e delicada, comportavam quase todos os traços fortes de uma mulher e mantinham um grau de juventude muito acentuado, o que permitia toda e qualquer mente ter alguma fantasia com alguma coisa ímpar. Seus olhos eram negros, da cor que é o escuro. Proposital ou não, o seu golpe de olhar era famoso e um rabo de olho era o suficiente para que a alma fosse sugada. Vermelhos e carnudos eram os seus lábios que, quando sorriam, lembravam uma menina inocente, porém, quando falavam, lembravam a aridez dos discursos de Ares frente a seus exércitos. No lugar dos cabelos tinha uma grande cachoeira dourada feita diretamente com raios solares e pitadas de ouro achado nos potes aquém do arco-íris. Quando preso parecia um sacrilégio: a dor de vê-los aprisionados era tanta que, muitas vezes, alguém se arriscava a apanhar para desprender e esvoaçar as madeixas douradas que deixariam Helena envergonhada. Adestrados, balançavam a cabeça junto com o ritmo incansável do louro de Maria e tinham os pensamentos mais libidinosos, talvez instaurados pelo próprio Lúcifer.
Aliás, é cabível lembrar que seu intelecto era digno do líder dos anjos caídos. Sua mente era rápida como uma andorinha africana em queda livre e sua percepção aguda pressentia se a pessoa era aquela que a animaria ou entediaria. Dificilmente era pega em alguma artimanha, afinal, ela pode não ser a mãe da mentira, mas, com certeza, era filha dela e, assim, conseguia enganar, aprontar e maltratar diversos homens e mulheres. Não que ela fosse bissexual, lésbica ou qualquer coisa parecida. Era livre. Mais nada.
Conversar com ela era como nadar a braçadas largas no Aqueronte em direção à voz da sereia moderna. Sua voz era melodiosa e atraente o suficiente para encantar até os Orfeus atuais, muitos deles abandonavam suas Eurídices à caminho da morte certa quando o hálito de Maria encontrava suas orelhas. No final das contas, Maria era um misto de Satanás e sereias: encantava para absorver almas e se alimentar da carne. Pelo menos não é possível afirmar que a atenção dada a ela para dois aspectos essenciais da existência humana fossem negligenciados.
Certa como a morte e os impostos, era uma lenda.
Marcos gostava de utilizar nicks que exasperassem sua masculinidade, o pênis seguia à risca a regra estabelecida por tantos anos pelos artistas: deve existir uma verossimilhança, mas que não corresponda necessariamente à realidade. Não que ele mentisse, era até que bem honesto quando conversava com os companheiros de carência afetiva.
Religioso, seguia os ensinamentos do padre Nélson à risca. Dessa forma não tardou a encontrar aquela que poderia ser o amor de sua vida, pelo menos naquela noite. Um oi singelo, um tudo bem amigável e a constatação da idade e a cidade eram o suficientes para animar a virilidade do rapaz. Marcos não tinha o costume de mentir sobre a sua aparência, só tinha problemas em descrevê-la: “nem alto, nem baixo, nem gordo, nem magro, olhos castanhos, alguns dizem escuros, outros claros, alguns até arriscam o preto dependendo do ângulo, meu cabelo é na altura do ombro: curto e comprido, preto, mas meio amarronzado, também depende do dia e do sol e da luz e da iluminação”.
A moça achou graça e resolveu mandar uma foto pro rapaz desajeitado. Não acreditou. Ela mandou uma segunda. Permaneceu incrédulo. A terceira. Ainda duvidava da veracidade. Quarta foto e meia paciência. Indeferido. Xingamento. Ofensa. Troca de e-mail. Telefone. Voz. Marcos perdeu o chão, o céu, o oxigênio e a capacidade de fala, era asmático. Não se agüentava de alegria: o cupido havia flechado o coração de Marcos e sua incapacidade de respirar se tornava cada vez mais latente enquanto ia falando com o objetivo de sua vida a partir do momento. Falaram, falaram, Falaram, falaram, Falaram, falaram, Falaram e falaram até que Marcos teve que desligar. Ela queria falar mais com seu amado, porém a hora havia chegado “a lua já vai bem alta, meu amor” e a necessidade do fechamento da linha se encontrava.
Passaram-se alguns meses. Entre três e sete, não sei muito bem. As missas que Marcos freqüentava eram no meio da semana e sempre particulares às segundas, quartas e sextas. Isso acontecia, pois a religião que Marcos seguia não respondia ao Vaticano e suas regras já um bocado estagnadas. O ato de falar já o cansava e, finalmente, resolvera reunir coragem para indagar sua amada de um encontro pessoal: eles se amavam, conversavam muito bem, a entrega era total de ambos, por que não? O que impedia o encontro do poeta com sua musa? Que obra de arte poderia sair dali? Ele fantasiava enquanto procurava discar os números para o Paraíso: três-nove-três-sete-seis-sete-seis, um número fácil de lembrar, ainda mais pela freqüência que ligava.
“Alô? Pois é. Sim, adorei! Aham. Aham. Não. Queria te perguntar uma… pode ser… eu acho… hahahahaha, sério?? Não acredito! Hmmm, é uma boa idéia…”
E começaram a Conversar. Depois dum excelente papo, Marcos reuniu seu fôlego e perguntou se seria possível um encontro entre eles. Poderia ser quando quisesse: hoje, amanhã, daqui um mês. Ela topou depois de pestanejar um pouco e, certos dos laços cupilídeos, desligaram o telefone com a data marcada: dali um mês se encontrariam na praça principal da cidade, na frente da igreja que marcava o início do cenário, às seis horas para verem, juntos, o sol se pondo e a lua crescendo.
O mês passou que nem viram e lá foram os dois encontrar o abraço um do outro. Marcos já estava lá fazia uma hora: para não chegar atrasado, resolveu ir mais cedo e adiantar o banco em frente à igreja. Olhava com admiração a construção quase feudal e quase gótica: alta (nem tanto) e antiga (nem tanto). Às vezes ele se perguntava como essas coisas tão grandes ficam de pé durante tanto tempo, ele que tem um metro e setenta e alguma coisa não consegue ficar mais que duas horas parado em pé no mesmo lugar! E o pior: como fizeram com que ficasse desse jeito? Arbitrariedade de diversos insetos mandando um gigante ficar estagnado durante anos, séculos! Sem contar que esse gigante é religioso, imponente, sagrado, divino, Deus louva aqueles que construíram essas coisas em sua homenagem. De qualquer jeito, a questão divina só fazia com que ele ficasse com vontade de conversar, de falar, de extrapolar as idéias que lhe vinham.
Olhou para o lado e viu um rapaz muito bonito, atlético, também admirando a catedral. Resolveu puxar assunto. Tomás, prazer, Marcos, prazer. Faz o quê aqui? Esperando alguém e você? Esperando o tempo. Tempo? Seis horas. Pra quê? Pra ir embora. Entendi. A conversa não era lá tão agradável quanto era com sua amada, parecia que algo interrompia a comunicação. O sino começou a tocar, alto. Não é bem um sino, na verdade é um aparelho que reproduz o som de sino, pouca gente sabia disso, mas o padre Nélson havia contado para Marcos que, uns cinqüenta anos atrás, o prefeito da cidade havia retirado o sino e derretido para arranjar dinheiro para a campanha eleitoral. “Desde quando sino dá dinheiro, padre?” Desde a idade média lhe foi respondido.
Com as badaladas do sino terminadas, como que por milagre, Marcos esperava que sua amada (que, só agora, ele percebia que não sabia o nome) surgisse, ficou procurando com os ouvidos qualquer voz que pudesse lhe parecer. Ela veio mais cristalina, porém grossa. Ele virou em êxtase para Tomás que o esperava com sorriso.
O mundo desabou, o queixo caiu, a flor murchou, a casa caiu e a vida se foi.
O sorriso daquele rapaz desconhecido era familiar, a voz que perguntava o que havia acontecido com a pele de Marcos era a mesma, os traços do rosto, o corpo parecia ser o mesmo. Logo, a pergunta simples se um rapaz simples, veio à tona:
“Você é um travesti?”
Tomás gargalhava e não conseguia conter o riso. Marcos se sentiu pequeno, muito pequeno, menor do que jamais se sentira. Os sentimentos que vinham à tona a cada gargalhada tão igual à de sua sereia eram confusos: raiva, amor, ímpeto assassino e incontrolável animação se misturavam num frenesi que acabou num golpe no estômago. No de Tomás, o que Marcos recebeu foi no coração. De alguma forma, a junção da gargalhada com o soco desferido pelo rapaz religioso acabou por colocar o grego estirado no chão com falta de ar, caçando oxigênio com a garganta e não conseguindo nenhum.
Marcos, em prantos, não sabia o que fazer. De amante promissor a assassino ocasional em uma hora, o ímpeto passional da mente simples de um rapaz carente e a bondade que invade o coração quando se vê um ser humano virando do avesso na sua frente o lançou num volumoso beijo da vida. Inserindo seu hálito na essência de Tomás, fez com que sentisse uma completude singular. Parecia que, ali, no hálito, no ar que preenche o pulmão, dentro dos muros de Tróia, ele encontrava sua Helena, ele podia sentir os ecos da mulher que tanto o encantou. Ela estava presa dentro do crápula desalmado de olhos vítreos!
Tomado por heroísmo digno do Bardo, Marcos se afastou do monstro aprisionador de donzelas e o apunhalou com o cotovelo na testa, fazendo a cabeça de Tomás ricochetear no chão e espirrar tinta vermelha. Não parava de sair tinta da cabeça do rapaz, um vermelho vivo que não podia ser sangue, sangue, apesar de ser a vida, não tem um vermelho vivo, curiosidade estranha. O belo rapaz não mais respondia e, triunfante, Marcos se levantava de cima do corpo estendido: olhava ao redor e diversas pessoas se aglomeravam para ver o que acontecia, espantadas com o sangue derramado.
Marcos sentou no banco e resolveu esperar o que acontecia. Aos poucos, o corpo de Tomás foi se enrolando e transformando num ovo gigante. Esse ovo, exatamente às 7 horas, chocou e de lá saiu ela, nua, bela, singular, macia, sedutora, entretanto as fotos prometiam um olhar negro e os que o encaravam eram azuis. O louro cabelo entrelaçou o pescoço e a cabeça de Marcos num abraço caloroso e apaixonado e, então, a mediocridade surgiu: “Qual o seu nome, afinal?”. Ela sorriu e as únicas palavras que saíram com o hálito fresco foram “Maria. Mas você já sabia disso!”
Em sua onisciência, Marcos retrucou que sempre soube, sempre soubera e sempre saberia, só que precisava confirmar de seus lábios doces e fantásticos. Ela riu. Ele hesitou. Ela beijou. Finalmente conversaram divinamente, tiveram o mesmo diálogo que Afrodite gostava de ter com os demais, falas perfeitas, pontuações impecáveis, acentuação correta: a fala se misturava à escrita e, nesse misto de ser e não-ser, acabaram por se enterrarem num oceano em branco, um deserto de sal, uma chuva de açúcar. Uma folha em branco para que, com a tinta de Tomás, desenhassem o que quisessem.

