O Olhar de Orfeu

O Deserto

02/12/2009 · Deixe um comentário

Ficou bem grande esse conto, o terminei ontem. Dessa forma eu volto a postar por aqui.

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Tomás era agradável. Seu corpo alto e atlético, fruto de muito trabalho árduo em horas na academia e nas sessões de treinos futebolísticos, tinha lhe rendido status de herói grego. Detinha um par de olhos desnecessariamente brilhosos: sempre que olhassem para seus globos havia a impressão de que toda a esperança do mundo se resguardava naquelas fossas de luz e, para piorar, eram azuis, cor tão admirada por muitos: religiosos, marinheiros, aviadores, pescadores, suicidas. A sua boca continha um sorriso desdenhoso, porém convidativo, os lábios vermelhos e seus dentes perfeitos e brancos lembravam o que deveria ter sido o principal instrumento de sedução de Afrodite. Seus traços misturavam o feminino e o masculino, mas nunca sem desconhecer de sua sexualidade, mas essa peculiaridade lhe dava a possibilidade de ser considerado bonito por homens e atraente pra mulheres. De suas idéias saíam seu cabelo curto, negro e liso: curto para não perder suas forças repentinamente e nem lhe segurarem em batalhas campais; negro por conspiração da natureza: o que encontravam nos olhos, perdiam na cabeleira, que, apesar de consumidora, trazia a paz da noite; e liso para que caso cresça se tornasse uma cachoeira éreba. Sua voz era grave e macia, sempre que falava um trovão caía e uma almofada era posta em contato com o ouvido, firme e gentil, sedutora e respeitosa.

Frustrado seria aquele que apenas visse um tipo bonitão em Tomás, seu intelecto era invejável. Sempre muito bem informado e muito astuto na arte de pensar. Também era sensível o suficiente para entender as Artes e forte para segurar o choro enquanto consolasse a amada em prantos por emoções arrebatadoras. Seu conhecimento estratégico era fabuloso, tanto no futebol quanto no xadrez. Tomás era um ás de raciocínio, antecipando jogadas e remontando estratégias como quem improvisa uma música ao piano, afinal, suas jogadas sempre tinham algo de clássico, belo e leve. Falava bem e sabia contar piadas, uma pessoa interessante de se conhecer, ouvir, ver, animar.

Antes que pensem más coisas da índole de Tomás, esclareço que sempre foi um jovem muito honesto, tanto consigo quanto com os outros. Da mesma forma que nunca se aproveitou da maestria de Gaia para ludibriar mulheres mil: era romântico na medida certa e jamais deu falsas esperanças a uma donzela.

Alguns até duvidavam de sua existência.

Maria pegava fogo. Seu corpo parecia ter sido esculpido pelo próprio Satanás. A luxúria transbordava de seus poros macios e delicados, porém espinhudos para quem chegasse perto. Horas perdidas em longas caminhadas fizeram com que suas pernas fossem grossas e fortes o suficiente para impedir qualquer homem fugir de seu abraço fatal. Como Ártemis, gostava de caçar e, para isso, sua locomoção deveria estar em perfeitas condições de uso. As ancas exerciam um poderoso efeito digno do magnetismo mais físico possível: redondas, firmes, elas mexiam em sua inflexibilidade enquanto andava, fazendo com que aqueles que vinham por trás de sua marcha se abatiam em seu poder libidinoso. Sua barriga não era nem dura, nem flácida, o meio termo para confortar um beijo e incomodar uma cabeça. Seus seios eram do tamanho ideal para sobrar apenas um pouco numa mão adulta; redondos e rosados, ficavam um pouco à mostra quando, sem sutiã, vestia uma camiseta branca apertada. Como vista em filmes americanos, o suor durante a caminhada manchava de transparência seu vale e quem quisesse percorrer por entre as montanhas poderia se imaginar no meio do desfiladeiro de carne. Sua face era agressiva e delicada, comportavam quase todos os traços fortes de uma mulher e mantinham um grau de juventude muito acentuado, o que permitia toda e qualquer mente ter alguma fantasia com alguma coisa ímpar. Seus olhos eram negros, da cor que é o escuro. Proposital ou não, o seu golpe de olhar era famoso e um rabo de olho era o suficiente para que a alma fosse sugada. Vermelhos e carnudos eram os seus lábios que, quando sorriam, lembravam uma menina inocente, porém, quando falavam, lembravam a aridez dos discursos de Ares frente a seus exércitos. No lugar dos cabelos tinha uma grande cachoeira dourada feita diretamente com raios solares e pitadas de ouro achado nos potes aquém do arco-íris. Quando preso parecia um sacrilégio: a dor de vê-los aprisionados era tanta que, muitas vezes, alguém se arriscava a apanhar para desprender e esvoaçar as madeixas douradas que deixariam Helena envergonhada. Adestrados, balançavam a cabeça junto com o ritmo incansável do louro de Maria e tinham os pensamentos mais libidinosos, talvez instaurados pelo próprio Lúcifer.

Aliás, é cabível lembrar que seu intelecto era digno do líder dos anjos caídos. Sua mente era rápida como uma andorinha africana em queda livre e sua percepção aguda pressentia se a pessoa era aquela que a animaria ou entediaria. Dificilmente era pega em alguma artimanha, afinal, ela pode não ser a mãe da mentira, mas, com certeza, era filha dela e, assim, conseguia enganar, aprontar e maltratar diversos homens e mulheres. Não que ela fosse bissexual, lésbica ou qualquer coisa parecida. Era livre. Mais nada.

Conversar com ela era como nadar a braçadas largas no Aqueronte em direção à voz da sereia moderna. Sua voz era melodiosa e atraente o suficiente para encantar até os Orfeus atuais, muitos deles abandonavam suas Eurídices à caminho da morte certa quando o hálito de Maria encontrava suas orelhas. No final das contas, Maria era um misto de Satanás e sereias: encantava para absorver almas e se alimentar da carne. Pelo menos não é possível afirmar que a atenção dada a ela para dois aspectos essenciais da existência humana fossem negligenciados.

Certa como a morte e os impostos, era uma lenda.

Marcos gostava de utilizar nicks que exasperassem sua masculinidade, o pênis seguia à risca a regra estabelecida por tantos anos pelos artistas: deve existir uma verossimilhança, mas que não corresponda necessariamente à realidade. Não que ele mentisse, era até que bem honesto quando conversava com os companheiros de carência afetiva.

Religioso, seguia os ensinamentos do padre Nélson à risca. Dessa forma não tardou a encontrar aquela que poderia ser o amor de sua vida, pelo menos naquela noite. Um oi singelo, um tudo bem amigável e a constatação da idade e a cidade eram o suficientes para animar a virilidade do rapaz. Marcos não tinha o costume de mentir sobre a sua aparência, só tinha problemas em descrevê-la: “nem alto, nem baixo, nem gordo, nem magro, olhos castanhos, alguns dizem escuros, outros claros, alguns até arriscam o preto dependendo do ângulo, meu cabelo é na altura do ombro: curto e comprido, preto, mas meio amarronzado, também depende do dia e do sol e da luz e da iluminação”.

A moça achou graça e resolveu mandar uma foto pro rapaz desajeitado. Não acreditou. Ela mandou uma segunda. Permaneceu incrédulo. A terceira. Ainda duvidava da veracidade. Quarta foto e meia paciência. Indeferido. Xingamento. Ofensa. Troca de e-mail. Telefone. Voz. Marcos perdeu o chão, o céu, o oxigênio e a capacidade de fala, era asmático. Não se agüentava de alegria: o cupido havia flechado o coração de Marcos e sua incapacidade de respirar se tornava cada vez mais latente enquanto ia falando com o objetivo de sua vida a partir do momento. Falaram, falaram, Falaram, falaram, Falaram, falaram, Falaram e falaram até que Marcos teve que desligar. Ela queria falar mais com seu amado, porém a hora havia chegado “a lua já vai bem alta, meu amor” e a necessidade do fechamento da linha se encontrava.

Passaram-se alguns meses. Entre três e sete, não sei muito bem. As missas que Marcos freqüentava eram no meio da semana e sempre particulares às segundas, quartas e sextas. Isso acontecia, pois a religião que Marcos seguia não respondia ao Vaticano e suas regras já um bocado estagnadas. O ato de falar já o cansava e, finalmente, resolvera reunir coragem para indagar sua amada de um encontro pessoal: eles se amavam, conversavam muito bem, a entrega era total de ambos, por que não? O que impedia o encontro do poeta com sua musa? Que obra de arte poderia sair dali? Ele fantasiava enquanto procurava discar os números para o Paraíso: três-nove-três-sete-seis-sete-seis, um número fácil de lembrar, ainda mais pela freqüência que ligava.

“Alô? Pois é. Sim, adorei! Aham. Aham. Não. Queria te perguntar uma… pode ser… eu acho… hahahahaha, sério?? Não acredito! Hmmm, é uma boa idéia…”

E começaram a Conversar. Depois dum excelente papo, Marcos reuniu seu fôlego e perguntou se seria possível um encontro entre eles. Poderia ser quando quisesse: hoje, amanhã, daqui um mês. Ela topou depois de pestanejar um pouco e, certos dos laços cupilídeos, desligaram o telefone com a data marcada: dali um mês se encontrariam na praça principal da cidade, na frente da igreja que marcava o início do cenário, às seis horas para verem, juntos, o sol se pondo e a lua crescendo.

O mês passou que nem viram e lá foram os dois encontrar o abraço um do outro. Marcos já estava lá fazia uma hora: para não chegar atrasado, resolveu ir mais cedo e adiantar o banco em frente à igreja. Olhava com admiração a construção quase feudal e quase gótica: alta (nem tanto) e antiga (nem tanto). Às vezes ele se perguntava como essas coisas tão grandes ficam de pé durante tanto tempo, ele que tem um metro e setenta e alguma coisa não consegue ficar mais que duas horas parado em pé no mesmo lugar! E o pior: como fizeram com que ficasse desse jeito? Arbitrariedade de diversos insetos mandando um gigante ficar estagnado durante anos, séculos! Sem contar que esse gigante é religioso, imponente, sagrado, divino, Deus louva aqueles que construíram essas coisas em sua homenagem. De qualquer jeito, a questão divina só fazia com que ele ficasse com vontade de conversar, de falar, de extrapolar as idéias que lhe vinham.

Olhou para o lado e viu um rapaz muito bonito, atlético, também admirando a catedral. Resolveu puxar assunto. Tomás, prazer, Marcos, prazer. Faz o quê aqui? Esperando alguém e você? Esperando o tempo. Tempo? Seis horas. Pra quê? Pra ir embora. Entendi. A conversa não era lá tão agradável quanto era com sua amada, parecia que algo interrompia a comunicação. O sino começou a tocar, alto. Não é bem um sino, na verdade é um aparelho que reproduz o som de sino, pouca gente sabia disso, mas o padre Nélson havia contado para Marcos que, uns cinqüenta anos atrás, o prefeito da cidade havia retirado o sino e derretido para arranjar dinheiro para a campanha eleitoral. “Desde quando sino dá dinheiro, padre?” Desde a idade média lhe foi respondido.

Com as badaladas do sino terminadas, como que por milagre, Marcos esperava que sua amada (que, só agora, ele percebia que não sabia o nome) surgisse, ficou procurando com os ouvidos qualquer voz que pudesse lhe parecer. Ela veio mais cristalina, porém grossa. Ele virou em êxtase para Tomás que o esperava com sorriso.

O mundo desabou, o queixo caiu, a flor murchou, a casa caiu e a vida se foi.

O sorriso daquele rapaz desconhecido era familiar, a voz que perguntava o que havia acontecido com a pele de Marcos era a mesma, os traços do rosto, o corpo parecia ser o mesmo. Logo, a pergunta simples se um rapaz simples, veio à tona:

“Você é um travesti?”

Tomás gargalhava e não conseguia conter o riso. Marcos se sentiu pequeno, muito pequeno, menor do que jamais se sentira. Os sentimentos que vinham à tona a cada gargalhada tão igual à de sua sereia eram confusos: raiva, amor, ímpeto assassino e incontrolável animação se misturavam num frenesi que acabou num golpe no estômago. No de Tomás, o que Marcos recebeu foi no coração. De alguma forma, a junção da gargalhada com o soco desferido pelo rapaz religioso acabou por colocar o grego estirado no chão com falta de ar, caçando oxigênio com a garganta e não conseguindo nenhum.

Marcos, em prantos, não sabia o que fazer. De amante promissor a assassino ocasional em uma hora, o ímpeto passional da mente simples de um rapaz carente e a bondade que invade o coração quando se vê um ser humano virando do avesso na sua frente o lançou num volumoso beijo da vida. Inserindo seu hálito na essência de Tomás, fez com que sentisse uma completude singular. Parecia que, ali, no hálito, no ar que preenche o pulmão, dentro dos muros de Tróia, ele encontrava sua Helena, ele podia sentir os ecos da mulher que tanto o encantou. Ela estava presa dentro do crápula desalmado de olhos vítreos!

Tomado por heroísmo digno do Bardo, Marcos se afastou do monstro aprisionador de donzelas e o apunhalou com o cotovelo na testa, fazendo a cabeça de Tomás ricochetear no chão e espirrar tinta vermelha. Não parava de sair tinta da cabeça do rapaz, um vermelho vivo que não podia ser sangue, sangue, apesar de ser a vida, não tem um vermelho vivo, curiosidade estranha. O belo rapaz não mais respondia e, triunfante, Marcos se levantava de cima do corpo estendido: olhava ao redor e diversas pessoas se aglomeravam para ver o que acontecia, espantadas com o sangue derramado.

Marcos sentou no banco e resolveu esperar o que acontecia. Aos poucos, o corpo de Tomás foi se enrolando e transformando num ovo gigante. Esse ovo, exatamente às 7 horas, chocou e de lá saiu ela, nua, bela, singular, macia, sedutora, entretanto as fotos prometiam um olhar negro e os que o encaravam eram azuis. O louro cabelo entrelaçou o pescoço e a cabeça de Marcos num abraço caloroso e apaixonado e, então, a mediocridade surgiu: “Qual o seu nome, afinal?”. Ela sorriu e as únicas palavras que saíram com o hálito fresco foram “Maria. Mas você já sabia disso!”

Em sua onisciência, Marcos retrucou que sempre soube, sempre soubera e sempre saberia, só que precisava confirmar de seus lábios doces e fantásticos. Ela riu. Ele hesitou. Ela beijou. Finalmente conversaram divinamente, tiveram o mesmo diálogo que Afrodite gostava de ter com os demais, falas perfeitas, pontuações impecáveis, acentuação correta: a fala se misturava à escrita e, nesse misto de ser e não-ser, acabaram por se enterrarem num oceano em branco, um deserto de sal, uma chuva de açúcar. Uma folha em branco para que, com a tinta de Tomás, desenhassem o que quisessem.

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O Brasil na F1 e a Literatura

21/07/2009 · 1 Comentário

Não posto já há algum tempo. O mês de julho nunca é agradável pra mim, contém o meu aniversário e, portanto, diversas reflexões sobre o que eu tenho feito com a minha vida. As conclusões nunca são interessantes para o ego de alguém, porém, pra todos os efeitos, cá estou eu de volta.

Como alguns sabem, uma das minhas paixões é o automobilismo. Mais especificamente a Fórmula 1 e, esses dias, estive pensando sobre um post relacionado à F1. Entretanto, como esse blog tem um foco mais literário, fiquei pensando em como relacionar a F1 e a Literatura e, felizmente, lembrei-me de uma aula que eu dei sobre o percurso gerativo do herói.

Nessa aula, usei um exemplo palpável para os alunos identificarem a transformação de homem para mito (que, inevitável e invariavelmente, se dá através da morte): Ayrton Senna. Ele foi um símbolo muito grande para o povo brasileiro e, certamente, é um herói da nação e sempre será lembrado como tal.

A partir disso, tive a idéia de relacionar os quatro maiores pilotos brasileiros que passaram pela F1 até hoje (Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna e Rubens Barrichello) com figuras ou arquétipos literários. Farei esse meu estudo em quatro posts (um para cada), para não ficar muito comprido e render mais público. Hehehe.

Começarei por aquele que durante muito tempo foi o campeão mais jovem da Fórmula 1 e, também, foi o primeiro brasileiro a conseguir um título por lá. O pioneiro, o bandeirante, o emblemático Emerson Fittipaldi:

Elvis Feelings

Elvis Feelings

Emerson é o nosso Homero. Sem ele, a epopéia de nossos oito títulos mundiais de F1 não teriam sido possíveis. Também foi com ele que diversos pilotos brasileiros começaram a ter sua chance lá fora. Claro que existiram pilotos brasileiros correndo no exterior (e, se não me engano, até na F1) antes de Emerson, porém foi com o “rato” (informação segundo meu avô desse apelido) que conseguimos um lugar de destaque no automobilismo mundial.

Homero é o poeta primeiro da Literatura. Montaigne é até bastante radical em dizer que só ouve ele como poeta na história e que todos os outros são cópias das cópias das cópias do escritor da Ilíada e Odisséia. Com duas epopéias belíssimas, a primeira retratando a Guerra de Tróia iniciada por conta de uma peleja envolvendo a mulher Helena e a segunda contando a volta de Odisseu (ou Ulisses) a sua casa depois de ter desafiado Poseidon, dizendo que a idéia do Cavalo de Tróia havia sido dele e que o senhor dos oceanos nada tinha com isso (o que, todos sabem, é engano de Ulisses, a idéia foi dada pelo deus, porém indiretamente).

Mais uma vez, temos uma feliz coincidência: Homero tem apenas essas duas obras, enquanto que Emerson tem dois títulos mundiais. Talvez Homero tenha tentado produzir mais alguma coisa fora as suas duas grandes obras, porém foram ofuscadas pelo brilho intenso que as duas obras-primas têm. Mais ou menos o que acontece com Emerson: lembramos de seu pioneirismo, de seus títulos, porém poucos lembram da equipe de F1 que ele montou posteriormente. Mais uma vez um pioneirismo que, infelizmente, não deu tão certo (até porque não era tão ruim quanto gostavam de afirmar).

Pra mim, nosso Emerson Fittipaldi está para o Brasil na F1 assim como Homero está para a Literatura: o primeiro e emblemático.

Ah... que carro! QUE CARRO!

Ah... que carro! QUE CARRO!

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Para não dizer que não falei de Michael Jackson

26/06/2009 · 2 Comentários

Comentar a morte de alguém é sempre um trabalho complicado. Mesmo que seja uma pesso distante de você, ou que tenha feito alguma coisa hedionda na vida e que, de uma maneira meio distorcida de pensar, mereceria a morte.

Outra coisa a se pensar é o tema principal desse blog que, apesar de fatalista em alguns momentos (acredito que minha visão de Arte é bastante mórbida), não se propõe à discussão mortuária, mas literária/artística. Aliás, acredito que essa é a primeira vez que uso a primeira pessoa (não como recurso artístico/teórico) nesse recanto virtual que criei.

Entretanto, sinto-me obrigado, seja pela minha infância ligada diretamente à ele, ou uma obrigação moral de admirador da Arte, a discorrer algumas palavras sobre o óbito de Michael Jackson.
Claro que o tom piegas já se encontra impregnado desde o início nessa folha virtual, porém é necessário dizer que o tom que dou a esse post é mais um exemplo de estudo artístico/literário e que se aplica perfeitamente ao caso do cantor falecido.

A vida pessoal do artista interfere na admiração e análise de sua obra?

A resposta para essa pergunta é bem simples e direta: não. Não há motivos para que a Arte de alguém esteja limitada à pessoa que a produziu. Como eu já afirmei anteriormente, a obra de Arte é cristalizada quando é feita e o artista que segue sua vida, passando por diversos momentos, produzindo outras obras e assim subseqüentemente. A vida pessoal pouco importa: o que ele fez, faz ou deixou de fazer não interfere diretamente sobre a sua obra, mesmo que ela seja autobiográfica. Como afirma Salvatore D’Onofrio:

“[...] Mesmo nos casos-limites do uso da própria vida para fins artísticos, num poema ou num romance escrito [e podemos adicionar aqui qualquer obra de arte] em primeira pessoa e com a utilização de dados biográficos da pessoa do autor, quem nos dirige a palavra só pode ser uma entidade ficcional.” – Teoria do Texto 1, páginas 54-55

[ ] = uma anotação minha.

É natural que se deixe levar pela biografia do autor, fazer relações e dizer: “ele escreveu isso por causa disso!”, “essa música ele fez porque era oprimido sexualmente!” e muitas outras afirmações que são impertinentes à obra.
E, com a morte de Michael Jackson, mais uma vez, essa verdade se confirma: Beat It, Thriller, Black or White ou qualquer uma das músicas que compõem a vasta obra musical do gênio artístico tem alguma diferença em saber que ele foi um (não confirmado) pedófilo? Realmente a pergunta chega até a ser bastante fácil de ser respondida. Na verdade, a resposta é tão clara que, nesse caso, até as pessoas não estudiosas sabem separar o Michael Jackson artista do Michael Jackson pessoa.

Como Carlos Heitor Cony afirmou numa entrevista que deu à TV Cultura (nem tão recentemente), um artista não pode continuar vivendo depois que a sua Arte acaba. Esse é o maior risco que um artista pode correr para, aos olhos simples, manchar a sua obra. Ou você morre como herói, ou vive o suficiente para virar o bandido, não é mesmo?

Agora, no fim de tudo, o que vai ficar? Os escândalos da vida pessoal, ou o escândalo que a Arte de MJ provocava?

Pra mim, a resposta é fácil.

Mais uma vez, perdoem-me pelo tom pessoal desse post, mas é impossível não se importar com a morte (tardia), de alguém tão importante para a Arte.

Abraços.

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A Idéia

19/06/2009 · 8 Comentários

A Idéia
Augusto dos Anjos

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica …

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.

Quando me pego pensando sobre o que escrever, surgem diversas idéias. Até me orgulho de ter tantas idéias assim: pra imaginarem a ferocidade dos pensamentos, eu tenho, montados, dois livros, uma peça de teatro, alguns artigos e a minha monografia. Fabuloso, não? Entretanto, me pego pensando que, apesar de criativo, sou covarde o suficiente para não me atrever a colocar no papel essas idéias que tenho costumeiramente.

Covarde porque, como (auspiciosamente) afirma Augusto dos Anjos, a idéia é um feixe luminoso que, quando posta em prática, perde boa parte de seu glamour inerente, de sua divindade singular. Quando proferida, a idéia já perdeu boa parte daquilo que a definia como fantástica e, talvez por incapacidade de transmiti-la em todo o seu ímpeto fantasioso, ela se perde na ponta de nossa língua, da caneta e dos dedos.

Quantas vezes já nos decepcionamos com aquilo que criamos? Quantas vezes já nos arrebatou, da forma mais singular, a realidade da incapacidade de concluir aquela idéia já remoída e trabalhada em nossa mente? Em mim diversas vezes e, acredito, a quem não arrebate essas dúvidas, essa dor, essa tristeza que é ver a tão esplendorosa idéia reduzida a menos que um lampejo do que ela realmente seria se conseguíssemos transpor diretamente de nossa inspiração, sem que ela percorresse o caminho corruptor descrito por Augusto dos Anjos, não é merecedor de sua iluminação, não é possível que seja um demônio no sentido mais arcaico da palavra, como descrito por Junito de Souza Brandão.

Em vista disso, fico pensando em uma nova leitura à fórmula artística proposta por Carlos Drummond de Andrade (Arte = 10% inspiração + 90% transpiração): será que é possível a afirmativa da Arte poder ser 100% inspiração se esta não fosse retorcida pelo processo de decadência? Será que Drummond, além de mostrar que a Arte denota um tremendo esforço intelectual, estava nos alertando que a transpiração que ele descreve é a nossa tentativa de reerguer a idéia à sua forma primordial?

Caso sejam verdadeiros esses pensamentos, sabemos que, ao final de tudo, não passamos de fracassados em busca da reestruturação de nossa luminosidade recorrente. A luz que é lançada aos artistas é fadada a se obscurecer no momento de sua produção, levando a obra a um estado de profunda dormência, destinada a pequenas tentativas de resgate de diversos leitores futuros, a pequenas auroras provocativas à obra de Arte que, por um momento, tem um particular Orfeu tentando levar determinada Eurídice à luz do dia e, entretanto, acaba falhando em sua jornada, já que a luz do olhar é apenas uma corruptela da luz diurna emitida por Apolo em seu resplendor, o que não pode ser tomada como uma realidade. A luz da Verdade, a luz do dia, a luz Apolínea, sempre foi uma, entretanto, a luz do olhar, aquela emitida por nós, é apenas um pequeno filtro daquilo que a Verdade nos dá, um filtro às avessas, já que nosso olhar tem como principal função transformar a Verdade em verdade, fazendo com que nossas tentativas de salvar a obra de Arte do Hades sejam falhas em seus momentos derradeiros. A Verdade não está sujeita ao tempo, nós sim.

Parece-me que estamos fadados eternamente a esse jogo, a essa brincadeira vã, porém bela, que a Arte nos propõe. A idéia nos dada nunca será reproduzida e, a nossa reprodução, nunca terá a leitura que queríamos no princípio, visto que o mesmo processo que sofremos quando temos a primeira idéia se torna recorrente quando lido por algum estranho ao nosso pensamento.

Então, ao final de tudo, por que escrevemos? E estou tão errado em permitir que a idéia fique intacta, porém apenas para mim, quando não me atrevo a escrevê-la? Dúvidas mais do que freqüentes a mim.

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Embusteiro

09/06/2009 · 1 Comentário

O mentiroso diz: eu minto!

Isso é verdade ou mentira?

Se for verdade, a pessoa não pode ser mentirosa porque está dizendo uma verdade, ao mesmo tempo em que, sendo honesta, ela não mentiria, então não diria que mente e nem seria considerada mentirosa.

Se for mentira, a afirmação se nega também pela própria estrutura: se o mentiroso mente quando afirma que mente, automaticamente passa a responder que diz verdades, entretanto, o fato dele mentir se torna uma mentira, o que não o faria ser uma pessoa honesta.

Bem complicado.

Esse tipo de pergunta é capciosa, ela pratica uma arapuca da qual não conseguimos sair, ficamos tentando provar algo que realmente não tem como ser, mostra que, pra nem tudo, se existe solução. Um belo jogo de palavras, apesar de antigo.

E se, no lugar do mentiroso, temos: “O artista diz: eu minto!”? Como proceder com essa afirmação? Segundo eu mesmo no meu post passado, o artista pratica Arte e a Arte existe para provocar uma reflexão sobre o real, mesmo sendo falsa, mesmo mentindo, mesmo não tendo sustentação no plano do real. Então é meio claro que o artista mente, não? Porém, como a mentira da Arte serve para nos mostrar a realidade através de uma falcatrua, o artista diz uma verdade, não?

Atrevo-me a responder que a solução está na própria essência da Arte: ambígua. Ela mente e diz verdade, ela pratica o nevoeiro e esclarece a visão, é a luz e as trevas, o bem e o mal, tudo reunido num só lugar, numa só situação. A Arte, tanto afirma quanto nega e, em seu terreno, isso é o que há de mais normal. Na verdade, a Arte que apenas afirma ou que apenas nega, geralmente, não é nem considerada Arte, não passa de uma expressão artística.

Notem que eu apenas utilizei a Arte na minha resposta e não o artista. E qual é a diferença disso? Toda. A mentira do artista pode revelar uma verdade, assim como a comicidade revela uma tragédia e a tragédia pode ser cômica, porém, para todos os efeitos, o artista continua sendo um mentiroso. Ele continua dizendo mentiras. E não é o tempo todo que ele faz isso com o intuito de dizer alguma verdade. O artista é um ser humano com uma capacidade singular, porém, no momento que a obra é concluída, ela já não pertence mais ao artista, deixou de ser dominada por ele e agora é livre.

A obra, no final das contas, não está sujeita ao tempo, ela é cristalizada no momento de sua conclusão, o que muda são as pessoas que a admiram e, aí sim, os universos contidos dentro da obra de arte se abrem e se revelam (se existirem, claro). O artista, ao contrário dela, está sujeito ao tempo: ele envelhece, muda, morre, tem pensamentos diferentes daquele que tinha quando fez a obra. Além de ser um mentiroso profissional.

Portanto, dessa forma, não podemos levar em consideração o que o artista fala sobre sua obra. É risível. E, aquela obra que está limitada à vida de seu artista está fadada a ir ao túmulo junto com seu idealizador, visto que ela está dentro do alcance de Cronos.

“O artista é irmão do criminoso e do demente.”

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